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O marketing da peste, por Luiz Felipe Pondé

Luiz Felipe Pondé, professor e doutor em filosofia: “Os agentes públicos, sendo em grande parte políticos de carreira, estão tão ou mais preocupados com sua sobrevivência política do que com os destinos da pandemia e suas vítimas”.
No mundo de hoje, o marketing é a ciência primeira. Tudo converge para ele, e, ao mesmo tempo, ele explica grande parte dos comportamentos das pessoas e das instituições.

No caso específico desta peste, esta hipótese se torna ainda mais evidente.

As mídias digitais transformam mesmo a pizza que você come num objeto de autopromoção. O dia a dia virou matéria prima pra você se vender. Pessoas afirmando seu amor a humanidade e as vidas perdidas na peste atual é garantia de indicação para o Oscar do humanismo oportunista.

Quando passamos das mídias digitais a mídia profissional, a realidade não se altera muito. Um certo ritual e solenidade da mídia profissional não se faz necessário no caráter de garagem que muitas vezes é permitido a uma live feita na cozinha da sua casa. Mas, a busca pela audiência hoje é, em grande parte, medida pelas métricas precisas do engajamento nas redes sociais.

A mídia profissional rege as manifestações oficiais dos agentes públicos sobre a peste atual, em grande parte, ainda que a reação a estas manifestações ocorram nas redes. As pessoas comuns começam a se sentir perdidas na medida que percebem a contradição entre as múltiplas narrativas.  A hipótese óbvia é que os agentes públicos, sendo em grande parte políticos de carreira, estão tão ou mais preocupados com sua sobrevivência política do que com os destinos da peste e suas vítimas. O resultado é a sensação de que o país permanece canalha na sua liderança política e irresponsável na sua militância ideológica.

Outra característica desta multiplicidade de narrativas é sua polarização política. Cresce uma percepção de que Bolsonaro, Doria e Mandetta encenam, em grande parte, um espetáculo de marketing político, ainda que não possamos, obviamente, reduzir o que fazem a este marketing político. Cada um escolhendo conteúdos advindos da ciência como sendo seu. Remédios em testes, isolamentos horizontal ou vertical, duração da quarentena, cálculos imprecisos e apressados dos epidemiologistas mundiais, e afins. Até onde vai a “verdade científica” de cada uma das escolhas e onde começa o marketing político, fica difícil dizer.

A verdade científica no caso da atual peste é que ninguém sabe com certeza nada de forma segura porque não deu tempo pra sabe-lo. Evidente que agentes públicos não podem se limitar a temporalidade da ciência, que é lenta, metódica e protocolar, mas a polarização política nesse caso, como princípio de ação, indica uma certa irresponsabilidade na gestão da peste.

O caráter de espetáculo e de visibilidade capilarizada em tempo quase real de tudo que se faz na mídia e nas redes hoje, impõe um ethos de marketing por toda parte. Do ponto de vista epidemiológico, é fato que existem dois tempos diferentes na relação entre vírus e população, que são relacionados.

O primeiro é aquele do isolamento. A maior parte dos países tem optado pelo isolamento horizontal (que chamamos entre nós de “quarentena”). O Brasil entre eles, ainda que o Bolsonaro e outros discordem. Não vou entrar nessa polemica aqui, ainda que as diferentes opiniões impactem o segundo momento de forma diferente.

O segundo é a saída da quarentena. A verdade é que, antes da vacina, a epidemia só diminui sua eficácia assassina quando as pessoas são contaminadas em grande medida. Essa é a tal imunidade de rebanho. Isso causa pânico em quem ouve porque esse processo implica que muitos morrem, ainda que uma minoria (mas, cada morte por si só é um absoluto). A saída da quarentena, mesmo que de forma gradual, lenta e organizada, gera medo. Mas, o mundo não pode ficar de quarentena muito tempo senão a economia morre e todos com ela.

O resultado é que o modo como se lida com este segundo momento é carregado de tensões do ponto de vista da comunicação. Quem fica o tempo todo falando que a vida vale mais do que tudo é um humanista oportunista, porque a vida é um fenômeno condicionado por elementos materiais concretos. Por outro lado, quem demonstra insensibilidade com o medo das pessoas é um desastrado, porque o medo paralisa.

Entendo que seja inevitável a discussão sobre a saída da quarentena, mas este processo não pode ser objeto de retórica polarizada (como está acontecendo entre nós) porque existem as vidas e a economia em jogo, e uma não existe sem a outra. Separar uma da outra é puro marketing. 

Referências: 

Boletim Coppolla

Luiz Felipe Pondé (@lf_ponde)
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